Volta ao Supremo: Por que o Krishna West é necessário?
Hridayananda Dasa Gosvami: Prabhupada queria que seu movimento
fosse um grande sucesso no Ocidente. Isso não está acontecendo. Devemos
pelos menos tentar fazer uma apresentação mais efetiva.
Volta ao Supremo: Existem práticas que não podem ser ajustadas por
serem essenciais, conforme descritas no capítulo seis de O Néctar da
Devoção, e que foram fortemente enfatizadas por Srila Prabhupada, como a
adoração a Tulasi e a organização de Ratha-yatras. No entanto, essas
práticas também são exóticas para o público em geral, possivelmente mais
do que, por exemplo, o uso das vestimentas indianas. No Krishna West,
tais práticas serão mantidas? Como torná-las familiares aos ocidentais
sem as diluir?
Hridayananda Dasa Gosvami: Nós devemos adorar Tulasi. Devemos
convidar o público a participar em tempos e circunstâncias apropriados.
Muitas pessoas gostam de Ratha-yatra, um festival que acontece uma vez
por ano. Poucas dessas pessoas sentem interesse em frequentar um templo
nosso ou adotar nossas práticas. Com comunidades mais acessíveis, um
Ratha-yatra anual ajuda, e não prejudica.
Volta ao Supremo: Recentemente, o Papa veio ao Brasil trajando as
vestimentas tradicionais da Igreja católica. Porém, embora não sejam
roupas que os ocidentais queiram usar, o Papa atraiu milhões de pessoas
às ruas. Talvez se ele viesse trajando roupas comuns, como calça e
camisa social, ou quem sabe um terno, as pessoas estranhassem muito esse
fato e questionassem se o Papa estaria se desviando. Alguns devotos
parecem pensar assim, ou seja, se vissem um sannyasi trajando roupas
ocidentais pensariam que ele está se desviando da vontade de Srila
Prabhupada. Poderia comentar?
O entrevistado lecionando na Universidade da
Flórida um curso sobre religiões da Índia, cuja uma parte do conteúdo
apresentou em Campina Grande no ano de 2009 no Seminário Hare Krishna de
Filosofia e Teologia.
Hridayananda Dasa Gosvami: Sim, em todas. O budismo cresceu
readotando os costumes hindus. O cristianismo morria, até suspender a
regra de que um seguidor de Jesus tinha que seguir muitos costumes
judaicos. Mesmo o profeta Maomé disse que os pregadores islâmicos deviam
se adaptar a cada país a que fossem. Não existe uma religião que eu
conheça que virou um grande sucesso sem fazer ajustes relevantes.
Volta ao Supremo: Como uma iniciativa criada recentemente, quais
os riscos que o Krishna West corre em termos do fanatismo típico de
alguns membros de novos empreendimentos, especialmente de caráter
religioso?
Hridayananda Dasa Gosvami: Cada iniciativa religiosa neste
mundo corre riscos. Prabhupada correu muitos riscos ao viajar para a
América, ao formar a ISKCON, ao abrir centros em países remotos etc.
Fazemos o nosso melhor.
Volta ao Supremo: O senhor acha que sua tentativa de
pregação focada em um público específico tem alguma semelhança com a
postura de Bhakti-tirtha Swami, que, em dado momento, pensou em uma
forma de pregação específica para alcançar o público Nova Era com a
consciência de Krishna? Há outros líderes na ISKCON pensando em projetos
análogos de pregação?
Hridayananda Dasa Gosvami: Claro que existem análogos entre outros pregadores. Não quero apenas pregar para um grupo limitado como os fãs de yoga,
de discos voadores, executivos de empresas etc. Quero que a missão de
Prabhupada seja um movimento importante no mundo em geral, uma religião
mundial importante.
Volta ao Supremo: O senhor acredita que a ISKCON um dia
possa se tornar uma instituição com diferentes “ordens”, como acontece
no catolicismo? Isso seria positivo?
Hridayananda Dasa Gosvami: Sem dúvida. Prabhupada mesmo recomendou que estudássemos a estrutura administrativa da Igreja católica.
Volta ao Supremo: Uma qualidade que o senhor tem deixado
transparecer ao longo de seus discursos sobre o Krishna West é a
humildade. O senhor constantemente coloca que não apenas aceita
críticas, mas admira sinceramente as pessoas que o criticam bem como
suas convicções e projetos pessoais. É algo muito inspirador de ver.
Haverá algum tipo de treinamento para “missionários Krishna West”
fomentando-lhes essa postura humilde e outras posturas fundamentais para
quem represente o Krishna West?
Hridayananda Dasa Gosvami: Espero que nossos devotos tenham bom senso e boas maneiras. Cobramos isso.
Volta ao Supremo: Algumas pessoas expressam diferentes
preocupações em relação ao Krishna West. Uma questão frequente é se os
centros de pregação Krishna West indicarão aos interessados em iniciação
apenas ou preferencialmente o senhor e outros gurus que aderirem ao
Krishna West ou se esse tipo de sectarismo será recriminado. Poderia
comentar?
Hridayananda Dasa Gosvami: Obviamente preferimos gurus que apoiem nosso programa, e não gurus que estejam contra ou que não vejam valor no que fazemos. Quem neste mundo gostaria de trabalhar duríssimo e daí chegar um guru que estraga tudo que você tentava fazer?
Volta ao Supremo: Em um debate na internet, sugeriu-se como
uma boa postura se o Krishna West se chamasse “ISKCON Krishna West” de
modo a prevenir qualquer desligamento ou afastamento da ISKCON. O senhor
acha que o uso do nome “ISKCON Krishna West” seria de bom auxílio nesse
entendimento de todos de que é, como o senhor disse na Declaração da
Missão do Krishna West, “um movimento dentro do movimento”?
Hridayananda Dasa Gosvami: Os jesuítas se chamam “Jesuítas
Católicos Romanos” no dia-a-dia? Na ISKCON, existem quantos “centros
culturais” sem “ISKCON” no nome? Nós temos a palavra ISKCON em todos os
nossos documentos importantes.
Volta ao Supremo: Já existem livros entre os escritos por
Prabhupada ou por devotos contemporâneos que podem servir de referência
para aqueles que se aproximem da consciência de Krishna através do
Krishna West ou tais livros ainda estão por ser escritos? Quer dizer, o
Krishna West conduzirá seus adeptos para leituras específicas de artigos
e livros ou terá as mesmas fontes que a ISKCON, por assim dizer,
“tradicional”?
Hridayananda Dasa Gosvami: Usaremos as mesmas fontes, com alguns livros novos que eu e outros estamos escrevendo.
Volta ao Supremo: Seu interesse em facilitar o acesso à
consciência de Krishna por parte de homossexuais é conhecido devido a
seu ensaio “Teologia Moral Vaishnava e Homossexualidade” e por outras
declarações. Os centros de pregação Krishna West terão uma política
“gay-friendly”? Em caso positivo, como isso se traduzirá na prática?
Hridayananda Dasa Gosvami: Oferecemos a todos a mesma oportunidade de avançar na consciência de Krishna, seguindo os mesmos princípios.
Volta ao Supremo: O Krishna West cantará mantras nas
línguas locais onde se estabeleça, compondo na língua local como fez
Bhaktivinoda Thakura, ou preservará o canto de mantras exclusivamente em
sânscrito e bengali?
Hridayananda Dasa Gosvami: O “programa espiritual” diário é o
mesmo de qualquer centro da ISKCON. Na ISKCON, já existem devotos
“normais” que cantam em línguas locais, fora do programa básico no
templo.
Titikshava Karunika, devoto famoso por sua banda de roque com letras em inglês sobre a consciência de Krishna.
Volta ao Supremo: No panfleto de divulgação do Krishna
West, descreve-se que “também estamos constatando em diferentes partes
do mundo que Krishna West é uma ferramenta poderosa para atrair
devotos experientes de volta ao serviço ativo”. Poderia discorrer sobre
isso? Não há muitos devotos que se afastam da ISKCON por questão da
“indianização”, até onde entendemos, mas, em geral, afastam-se por
desavença entre os devotos, decepção com líderes que caem, dificuldade
com o sadhana pessoal, descrença da teologia etc. O Krishna West tem
procedimentos diferentes da “ISKCON geral” para lidar com tais coisas
também de modo a atrair aqueles que se afastaram por esses motivos de
volta ao serviço devocional?
Hridayananda Dasa Gosvami: Na realidade, muitos devotos se
afastam da pregação ativa porque não se sentem bem com a apresentação
muito indiana. Sei disso porque tais devotos falam comigo. Em geral,
queremos oferecer um programa amistoso, razoável e consciente de
Krishna, e quem quiser pode participar.
Volta ao Supremo: Ainda em meio a muitas ideias abstratas,
alguns gostariam de visualizar mais concretamente como seria um centro
Krishna West. O senhor poderia fazer uma descrição de um visitante
chegando ao centro, vendo-o do lado de fora e também sua experiência em
seu interior ao longo de toda a programação até o momento em que retorna
para casa?
Hridayananda Dasa Gosvami: Será um centro normal, porém com estilo ocidental de sattva-guna. Simples.
Volta ao Supremo: É famosa a história de que, quando
Prabhupada chegou ao ocidente, disse que já podia ver a ISKCON no futuro
com muitos templos, escolas e outras facilidades, uma realidade
separada apenas pelo tempo. Como o senhor imagina o Krishna West daqui a
uma década ou duas?
Hridayananda Dasa Gosvami: Espero que seja muito grande. Acho que será.
Volta ao Supremo: Sabemos o quanto o tempo do senhor é
curto, então agradecemos imensamente pela entrevista. Alguma mensagem
final aos leitores do blog Volta ao Supremo?
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