Love Radha Krishna

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Memórias: Lídia do Mar



Se esse troço todo virar um livro, o que é difícil, este parágrafo tem que ser suprimido. Explico melhor. A foto que encontrei navegando no mundo virtual, me impele a escrever sobre Lídia agora. Eu ia escrever mais tarde, porém nunca vi uma fotografia tão próxima de uma realidade passada.
Era uma época boa, bom emprego e sem fazer muita merda, estava em processo de transição e simplesmente trabalhava no turno da manhã, tendo tardes livres e noite precoce para estar apto a jornada de trabalho do dia seguinte.
Durante as tardes quase não fazia nada, ouvia música e quando o mar estava propício, pegava ondas no final do Leme, praticando o Body Board. Tinha uma turma boa nessas tardes, tanto dos adeptos do Body Board como dos surfistas. Foram meses nessa rotina e durante esse tempo, sempre observei a presença nas pedras do Leme de uma moça observando o mar os surfistas, as surfistas, sei lá.
Tínhamos o cuidado de não ficar perto do paredão da Pedra do Leme, onde fica o caminho dos pescadores, para não sofrermos nenhum tipo de acidente grave naquele amontoado de pedregulhos no quebra-mar. Que eu saiba, nunca houve isso.
Um dia comum, saí do mar e observei melhor a moça, ela estava impassível e longe. Segurava uma taça de vinho tinto. Aquilo me incomodou de uma forma estranha e instigante. Passei a sair do mar sempre o mais próximo da moça. Mesmo em dias de chuva ela estava lá, os surfistas e praticantes do body board também, desde que as ondas estivessem boas para a prática desses esportes. Moça muito estranha e bonita também. Uma beleza pálida e olhar perdido.
Comecei a dar tchau, boa tarde, qualquer coisa para quebrar aquele gelo, cheguei a pensar que se tratava de uma fantasma querendo me sacanear. Um dia tomei coragem e perguntei.
- Por que você não experimenta pegar uma onda?
- Olho o mar.
- Isso eu sei, te vejo aqui fazendo isso todos os dias.
- Também te vejo no mar todos os dias, você e todos,  o que tem de errado nisso?
- Nada.
-Por que você não experimenta?
- O que? Disse eu
- Uma taça de vinho. Disse ela pegando outra taça numa cesta que eu nunca tinha notado.
- Aceito, mas conheço o vinho. O que te fascina tanto no mar?
- O mar.
- Fica difícil, vamos brindar e tentar começar novamente. Que tal pelas apresentações?  Eu sou o David e você?
- Lidia, prazer em conhecê-lo.
Ficamos um bom tempo calados, até que resolvi dar o fora. Era maluca.
- Lídia, vou nessa, amanhã trabalho e tenho que dormir cedo. Foi muito bom te conhecer, a gente se fala.
- Fica quieto, pensei que você estivesse ouvindo.
- Ouvindo o que?
- O mar.
- Claro que estou ouvindo, não sou surdo.
- Não está ouvindo nada.
-  Já que é assim, o que o mar te diz?
- Vida e morte estão no mar.
-Tá bom Lídia, acredito, mas realmente preciso ir.
No dia seguinte saí do mar distante de Lídia. Para minha surpresa ela gritou, “David, não quer uma taça de vinho?” Fui lá.
- Por que você saiu do mar longe de onde estou?
- A onda me levou para lá.
- Mentira David, você cortou a onda para na direção oposta.
- Entende de body board?
- Entendo de mar.
- Lídia, você tem alguma coisa mal resolvida com o mar?
- Não.
- Perdeu alguém querido afogado por aqui ou em outra praia? Parece  que você fica esperando o retorno de alguém perdido.
-  Do Bataeu Mouche? Foi ali atrás (apontando para a ponta da Pedra do Leme) que o barco afundou. Eu vi.
- Você estava no barco é isso?
- Não.
- Alguém que você ama?
- Já disse que não, você faz perguntas demais e só fala em tragédia. Fale de vida que vem do mar.
- Odoyá minha mãe, salve Iemanjá!
- Ela pode ser a rainha, mas o mar é meu.
- Você existe mesmo Lídia?
- Você está bebendo um vinho que eu te dei, não basta? Se for do seu agrado pode me tocar.
Acariciei seu rosto frio e seus cabelos louros escuros escorridos, apenas dei um beijo em sua face. Lídia me retribuiu com outro beijo, na boca. Tive a impressão de sentir gosto de sal. Ficamos assim, nos conhecendo dia após dia com poucas palavras e beijos aumentando. Conseguimos até descobrir gostos em comum fora o mar. A ultima vez que tentei puxar assunto sobre o mar foi cômico.
- Lídia, por que o mar te fascina tanto?
- Pelo mesmo motivo que esse pedaço de madeira sintética que você chama de prancha te fascina também.
- Com você é diferente.
- O mesmo digo de você.
- Tá,  já vi que não vou arrancar nenhuma confissão de você, eu desisto. Posso ao menos tentar outra coisa?
- Outra coisa, eu estava esperando.
- Ufa, finalmente vamos passar momentos normais.
- Beira do mar é normal, sempre passamos momentos normais.
- Concordo, quis dizer que vamos para outro lugar.
-Negativo David, será aqui, na beira do mar.
- Enlouqueceu Lídia? Ou não entendeu o que eu disse?
- Entendi sim e foi uma cantada sem a menor criatividade, você deveria ao menos ter me proposto um mergulho no mar, abraçados.
- Já fiz isso.
- Não você perguntou se eu queria pegar onda, o que é bem diferente.
- Tá e aí a gente se afoga juntos, abraçadinhos, acabei de descobrir que minha namorada é uma sereia.
- Acabei de descobrir que meu namorado é um pastel. Não se trata de tragédia, já falei. Podemos muito bem fazer amor aqui.
- Claro com todos  os pescadores , banhistas, crianças , policiais e soldados do Forte do Leme olhando. Muito normal e nada de ruim ia acontecer.
- (rindo, o que era raro) Claro que não, de madrugada dá para fazer. Te espero as 4 da manhã aqui. Se você não vier será o fim de nosso namoro.
Deixei Lidia na porta de seu prédio, na Avenida Atlântica, de frente para o mar, bem próximo de onde ficávamos. Fui para casa pensativo, queria ver até onde Lídia ia com essa estória de mar e a possibilidade de transar na beira do mar era algo que nunca me passara pelam cabeça.Mas, tinha uma coisa, as 4 da manhã eu tinha que estar na redação.  Tinha que faltar ao trabalho. Liguei para Kolandra e Renato e menti uma doença, um febrão danado. Eles disseram que seguravam a barra e me desejaram melhoras. Ótimo, agora era aguardar o relógio sinalizar umas três e meia da madrugada e encontrar Lídia.
Fui e ela estava lá, olhando o mar.
- Pensei que você não vinha.
- Tive que faltar ao trabalho por sua causa.
- Na próxima vez será no final de semana.
- Não pode ser em outro lugar com horário mais adequado? Tem finais de semana que trabalho.
- Até pode, mas vai ser muito chato.
Lidia rolou sobre mim.
Quem pensa que fazer amor, transar, trepar, ou seja lá o nome que gosta de usar, na beira da praia é sensual e excitante, que vá fazer com Lídia. Não tem nada disso, nem de romântico.  Agua fria molhando as roupas, misturada na areia entrando pelas roupas e me afogando. Fora o perigo de sermos presos por atentado ao pudor. Em síntese foi uma merda. Só em cinema e tv isso funciona, mas amigos, perguntem para os atores o que eles acham. É super anti-clímax!
Saímos da praia abraçados e Lídia parecia feliz, eu estava aliviado e parecia feliz também, mas estava era puto da cara, todas s pessoas que nos viam sabiam o que tínhamos feito, não que isso me importasse, já era passado. O que me incomodava era a maluquice de Lídia, as roupas cheias de areia e pingando. Em função dessa brincadeira peguei uma puta gripe  que se manifestou  no dia seguinte ou depois e me serviu para embromar melhor o Kolandra e o Renato.
- Janta na minha casa amanhã? Quero te apresentar a meus pais.
- As 4 da manhã?
- Claro que não, no horário que a maioria das pessoas jantam.
- Ah, já melhorou bastante.
- Posso te esperar às 8 da noite?
- Claro que pode.
Combinamos de não aparecer na praia a tarde, só nos veríamos a noite e na porta de seu prédio Lídia disse que morava no 501.
Fui para casa, tomei um banho e dormi o dia inteiro. Aprontei-me para o jantar com uma roupa simples, ou seja, a primeira que vi no armário, as de sempre, camisas de surfista com alguma coisa que lembrasse um refugiado de guerra e tênis sujo. Lá fui eu.
Juro que me senti um peixe dentro d’água, mas eu não sou peixe. Lídia me recebeu com entusiasmo, me apresentou a seus pais que estavam na sala de tv e lá ficaram, devem estar lá até hoje, mesmo que mortos e cheirando a bacalhau podre. Eles não me deram a mínima bola. O fato do apartamento ser de frente para o mar inundava o ambiente com   cheiro da maresia e o barulho das ondas quebrando. Até um puta aquário  para peixes do mar tinha lá, com cavalo marinho e uns peixes coloridos, tem uma chamado peixe palhaço.Confesso que aquele mar todo foi me irritando. O pai de Lídia parecia um molusco, um grande mexilhão e a mãe uma orca ou cachalote. Além de irritado tive náuseas, parecia que navegava em alto mar em noite de tormenta.
A única pessoa que parecia tão normal quanto eu  (que ironia,  eu normal) era a empregada que nos serviu a janta. Carne assada? Claro que não, casquinhas de siri na entrada e macarrão com frutos do mar no prato principal. Me senti um antropófago, parecia que estava comendo pedaços de Lídia e sua família. Tudo era mar. Não me lembro da sobremesa, se teve bota aí um pudim de anchova com molho de lulas que não foge ao cardápio da noite.
Conversamos bastante, ouvimos música, principalmente Dorival Caymmi que tem um repertório bem vasto quando se trata de mar e desviei o assunto.
- Lídia, fui contratado por outra emissora, agora terei dois empregos, o que significa que body board vai ficar raro, senão impossível.
- Fico feliz por você, isso não será problema algum, temos a vida, a noite as madrugadas – Disse Lidia com um olhar malicioso, o único que vi dela em toda nossa estória. Normalmente ela tinha um olhar de peixe morto.
- Ta bem se você não se importa, assim será, noites e madrugadas.
Menti escandalosamente enquanto Lidia pegou um disco do Led Zeppelin chamado Houses of the Holy e um sanduíche de atum para quem adivinhar a música que ela botou para tocar. Claro que foi The Ocean.
Já me sentindo uma água viva, ou morta, afogado de tanto mar, um corsário náufrago, me despedi de Lidia e das criaturas marinhas que devem ter emergido das fossas marianas (os pais dela) com o firme propósito de não mais procurá-la, o que seria fácil com dois empregos. Eu realmente não queria virar uma sardinha nem tenho vocação para isso.
Assim foi, nada de noites e madrugadas durante meses, body board então, mesmo que eu quisesse não tinha tempo.  Quando me sobrava algum nas 24 horas do dia, era colocar um disco chato e dormir. Para isso servem os discos chatos. Esqueci por completo Lidia.
Mais ou menos um ano depois desse jantar tive um fim de semana de folga nas duas TVs em que trabalhava, dormi o sábado inteiro. No domingo, mais bem disposto, fui pegar onda. Porra, não é que Lidia estava lá, com a cesta e o vinho. Ela me viu, acenei e ela não fez gesto algum, olhou para o  mar e assim ficou.
Peguei minhas ondas e sempre de olho em Lidia, procurava me afastar ao máximo de onde ela estava nas pedras. Cortava as ondas no sentido oposto. Quando saí do mar, percebi que um surfista estava bebericando vinho com Lidia.  Uma onda enorme de felicidade me pegou, quase fui celebrar o casamento dos dois ali mesmo.
Muito chão e ondas se passaram, body board ficou aposentado e outras atividades me ocuparam ao longo de décadas. Até fiscal de transportes urbanos sem ter uma carteira de habilitação eu fui. Casei, descasei e casei novamente. To encurtando porque essa narrativa toda me dá a impressão de estar no Titanic afundando com aquela família estranha.
Fui morar no Centro – Oeste do país, outra experiência para estranhos e esquisitos. Agora entendo melhor o Lincoln, mas regularmente visito o Rio de Janeiro, meu lar eterno e Copacabana minha paixão. Numa dessas revigorantes visitas a minha terra, fui à Pedra do Leme, no Caminho dos Pescadores (sempre fui para ser sincero) acompanhado de esposa e amigos. Nem me lembrava mais de Lídia, mas não é que a porra da doida estava lá.  Envelhecida é claro, seus cabelos loiros estavam esbranquiçados, taça de vinho na mão, conversando com um surfista, a velha cena, só que o surfista tecnicamente poderia ser filho dela. Se o cara gosta, vai levar muita água do mar com areia cú adentro. Lidia, que se dizia dona do mar tinha virado com o passar dos anos uma sereia papa-anjo. Não quero nem imaginar se chegar à terceira idade.
Ainda assim, se Lidia tem tanto fascínio pelo mar, eu daria um oceano para saber que tipo de onda, correntes e marés navegam por seus pensamentos.

 
Como bem disseram os Rolling Stones, "Gimmie Shelter". Só pedindo abrigo mesmo.



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