Love Radha Krishna

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Memórias: Cremando a mãe alheia



Essa foi formidável para não dizer tragicômica. Com tanta gente para representar  um grupo  na cerimônia de cremação do corpo da mãe de um famoso colega, fui eu o escolhido. Puta que o pariu, só dizendo assim, normalmente eu não reclamaria de uma incumbência dessa, porém alguma coisa me dizia que não iria dar certo.
Esperneei,  disse que tinha um voo naquela hora para Nova Dheli porque tinha um compromisso em Vrindavnan com Swami Bhramanada, fiz qualquer coisa, inclusive tentei comprar um colega, pagar para ele ir no  meu lugar. Todas as tentativas foram coroadas com o retumbante fracasso,
Para não chegar atrasado e em pleno horário de verão, acabei comparecendo muito adiantado. Não foi difícil avistar um prédio e dentro dele as indicações de onde e quais corpos seriam cremados em quais horários. O que eu deveria estar presente era um dos últimos. Me dirigi muito contrariado ao local e quando cheguei, notei que o lugar além de vazio estava escuro demais. Para passar o tempo eu queria ler um livro de Prabhupada, “Respostas perfeitas para Perguntas perfeitas”. Não tinha a menor intenção de dizer palavras de consolo e espiritualizadas na hora da cerimônia, apenas queria ler.
Tateei as paredes em busca de um interruptor para acender a luz. Achei uma protuberância e um botão, Apertei e nada de luz. Apertei novamente e o botão parecia ter afundado.  Nem deu tempo para dizer um palavrão bem característico meu e ouvi uns barulhos estranhos, de engrenagens. O lugar permanecia escuro, mas pude sentir que algo estava ocorrendo e era por causa do maldito botão. Forcei a vista e pude ver que a câmara de cremação estava ligada, labaredas pululavam na janelinha da porta e me ajudaram a ver que eu tinha feito. Acabara de ligar o processo eletro-mecânico de cremação.
Pensei que ficaria só naquilo e até me conformei com a minha atitude, falaria para todos  que sem querer tinha ligado o forno. Se fosse isso!
Logo a esteira que transporta o caixão começou a se mover lentamente, eu havia ligado a engrenagem completa. Caramaba,  corri até a parede e tentei localizar o botão que desligasse a geringonça. Descobri para meu  total pavor que só tinha o botão que eu acionei, não existia o liga/desliga ou on/of, ou seja, o troço só desligaria depois do tempo programado para a cremação.
Corri até o caixão tentando inutilmente  segurá-lo de seu destino inexorável. Pensei em derrubar o caixão e depois re-arrumar tudo, defunta, flores etc., porém parecia um caixão de chumbo, não consegui e também o que iriam dizer se me vissem com um caixão e defunta no chão e flores para todos os lados? No mínimo iam me acusar de tardo necrófilo. Pensei também em última instância, em me cremar junto com a defunta mas não adiantaria de nada, a família da morta não estaria presente e eu me senti mal sendo uma Joana Dárc sem qualquer utilidade.
Por fim, deixei que a cremação se concretizasse, rezei o mais  rápido que pude e me esgueirei por todas as paredes e portas do crematório e já nas alamedas do cemitério, ainda com cara de réu confesso, encontro com um comediante amigo.
- Oi David, veio para a cremação de Dona Belinha?
- Acabei de chegar justamente para representar nossa organização, mas to meio perdido, ainda não achei o local. – Menti
- Nós procuramos juntos, mas você está estranho, meio pálido. Tem alguma coisa relacionada com tua religião?
- Tem sim, deixa eu ir lá fora pegar um ar e já volto
Claro que não voltei e no dia seguinte a  imprensa carioca fazia o maior alarde sobre a cremação fora de hora de uma personalidade, alguns periódicos mais babacas falavam em cremação fantasma ou que a defunta havia fugido da cerimônia, deboche mesmo. Infelizmente isso deu inquérito administrativo e funcionários que nada sabiam possivelmente foram demitidos ou no mínimo, advertidos. Não gostei dessa parte e mesmo que eu confessasse minha atitude inocente que  gerara aquilo tudo, os administradores do campo santo iriam demitir ou advertir os mesmos funcionários por invigilância e outras coisas. Foi tudo muito  ruim e desagradável.
Tempos depois, em seu programa televisivo, o comediante com o qual tinha encontrado nas alamedas do cemitério, na minha tentativa de fuga,  toca no assunto  e fala que em nosso encontro eu estava com uma postura de atitude suspeita. Todo mundo riu e desconfiou que tivera sido eu o culpado pela tragédia e confusão. Nada falei e deixei o tempo trazer novos fatos de todos os gêneros que substituem uns aos outros na imprensa e na atenção do público em geral. Mas agora, preciso dizer que fui eu? Fui sim, me desculpem todos e foi sem querer, eu só queria ler um livro de Prabhupada. Coisas estranhas sempre aconteceram comigo!


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