Essa foi formidável para não dizer
tragicômica. Com tanta gente para representar um grupo na cerimônia
de cremação do corpo da mãe de um famoso colega, fui eu o escolhido. Puta
que o pariu, só dizendo assim, normalmente eu não reclamaria de uma
incumbência dessa, porém alguma coisa me dizia que não iria dar certo.
Esperneei, disse que tinha
um voo naquela hora para Nova Dheli porque tinha um compromisso em Vrindavnan com Swami Bhramanada,
fiz qualquer coisa, inclusive tentei comprar um colega, pagar para ele ir no
meu lugar. Todas as tentativas foram coroadas com o retumbante fracasso,
Para não chegar atrasado e em
pleno horário de verão, acabei comparecendo muito adiantado. Não foi difícil
avistar um prédio e dentro dele as indicações de onde e quais corpos seriam
cremados em quais horários. O que eu deveria estar presente era um dos últimos.
Me dirigi muito contrariado ao local e quando cheguei, notei que o lugar além
de vazio estava escuro demais. Para passar o tempo eu queria ler um livro de Prabhupada,
“Respostas perfeitas para Perguntas perfeitas”. Não tinha a menor intenção de
dizer palavras de consolo e espiritualizadas na hora da cerimônia, apenas
queria ler.
Tateei as paredes em busca de um
interruptor para acender a luz. Achei uma protuberância e um botão, Apertei e
nada de luz. Apertei novamente e o botão parecia ter afundado. Nem deu
tempo para dizer um palavrão bem característico meu e ouvi uns barulhos
estranhos, de engrenagens. O lugar permanecia escuro, mas pude sentir que algo
estava ocorrendo e era por causa do maldito botão. Forcei a vista e pude ver
que a câmara de cremação estava ligada, labaredas pululavam na janelinha da
porta e me ajudaram a ver que eu tinha feito. Acabara de ligar o processo
eletro-mecânico de cremação.
Pensei que ficaria só naquilo e
até me conformei com a minha atitude, falaria para todos que sem querer
tinha ligado o forno. Se fosse isso!
Logo a esteira que transporta o
caixão começou a se mover lentamente, eu havia ligado a engrenagem completa.
Caramaba, corri até a parede e tentei localizar o botão que desligasse a
geringonça. Descobri para meu total pavor que só tinha o botão que eu
acionei, não existia o liga/desliga ou on/of, ou seja, o troço só desligaria
depois do tempo programado para a cremação.
Corri até o caixão tentando inutilmente
segurá-lo de seu destino inexorável. Pensei em derrubar o caixão e depois
re-arrumar tudo, defunta, flores etc., porém parecia um caixão de chumbo, não
consegui e também o que iriam dizer se me vissem com um caixão e defunta no
chão e flores para todos os lados? No mínimo iam me acusar de tardo necrófilo.
Pensei também em última instância, em me cremar junto com a defunta mas não
adiantaria de nada, a família da morta não estaria presente e eu me senti mal
sendo uma Joana Dárc sem qualquer utilidade.
Por fim, deixei que a cremação se
concretizasse, rezei o mais rápido que pude e me esgueirei por todas as
paredes e portas do crematório e já nas alamedas do cemitério, ainda com cara
de réu confesso, encontro com um comediante amigo.
- Oi David, veio para a cremação
de Dona Belinha?
- Acabei de chegar justamente para
representar nossa organização, mas to meio perdido, ainda não achei o local. –
Menti
- Nós procuramos juntos, mas você
está estranho, meio pálido. Tem alguma coisa relacionada com tua religião?
- Tem sim, deixa eu ir lá fora
pegar um ar e já volto
Claro que não voltei e no dia
seguinte a imprensa carioca fazia o maior alarde sobre a cremação fora de
hora de uma personalidade, alguns periódicos mais babacas falavam em cremação
fantasma ou que a defunta havia fugido da cerimônia, deboche mesmo.
Infelizmente isso deu inquérito administrativo e funcionários que nada sabiam
possivelmente foram demitidos ou no mínimo, advertidos. Não gostei dessa parte
e mesmo que eu confessasse minha atitude inocente que gerara aquilo tudo,
os administradores do campo santo iriam demitir ou advertir os mesmos
funcionários por invigilância e outras coisas. Foi tudo muito ruim e
desagradável.
Tempos depois, em seu programa
televisivo, o comediante com o qual tinha encontrado nas alamedas do cemitério,
na minha tentativa de fuga, toca no assunto e fala que em nosso
encontro eu estava com uma postura de atitude suspeita. Todo mundo riu e
desconfiou que tivera sido eu o culpado pela tragédia e confusão. Nada falei e
deixei o tempo trazer novos fatos de todos os gêneros que substituem uns aos
outros na imprensa e na atenção do público em geral. Mas agora, preciso dizer
que fui eu? Fui sim, me desculpem todos e foi sem querer, eu só queria ler um livro de Prabhupada. Coisas estranhas sempre aconteceram comigo!


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