Essa não chega aos pés do evento MMPB, Moderna Música Popular Brasileira, mas tem lá seu inusitado que só foi descoberto motivado pela música.
Explico em detalhes.
Não me lembro mais qual era o ano, dois mil e pouco está bom. Uma manhã de verão em Copacabana e eu com minhas caminhadas matinais para perder a famigerada barriguinha e peso extra. Até hoje desconfio que esse troço não adianta nada, haja visto que o calombo abdominal permanece com muita saúde diga-se de passagem.
O dia prometia. Depois da caminhada iria comprar num shopping do Leblon o box set cd/dvd Celebration Day do Led Zepellin, a histórica reunião da banda em dois mil e sete com Jason Bonham, filho do lendário baterista original do Led, John Bonham, falecido em mil novecentos e oitenta.
Só isso já me estimulava.
Meu percurso pela orla era sair da praça do Lido até o final do Leme, retornar dando uma esticada até o Copacabana Palace e voltar até o Lido. Cerca de quatro quilômetros mais ou menos onde aproveitava para praticar meu maha mantra diário. Hare Krishna.
Chegando ao fim do Leme e já fazendo a curva na entrada do caminho dos pescadores vejo chegando numa velocidade bem mais intensa que a minha um senhor grisalho aparentando uns sessenta, sessenta e cinco anos, pele morena curtida pelo sol e pasmem, fumando tão intensamente quanto seu trotar. Logo ele me ultrapassou e seguiu adiante. O inusitado finalmente aparece no texto, tem mais. Entretanto antes de chegar ao final mais inusitado, devo registrar que me senti um verme ou coisa que o valha. E ainda me perdi no maha mantra. Fiquei cogitando que diabos era aquilo, caminhadas saudáveis na orla com tragadas profundas no cigarro. Um contra senso jamais visto. Saúde e derrota do corpo físico caminhando literalmente juntas e em aparente harmonia. Isso com o adicional que o preparo fisico do senhor era muito maior que o meu e ele não tinha o menor vestígio de barriga. Alguns pensamentos surgiram no lugar do maha mantra. Estaria o senhor pagando promessa? O maha mantra teria me levado ao estágio de pré-samadhi por vias estranhas e me causado alucinação? Cigarro com forte caminhada matinal perde a barriga?
Confesso que no auge de meu desespero e humilhação pensei em comprar um pacote de cigarros e fumar sofregamente um após outro para adquirir o preparo fisico do senhor em questão e me livrar da barriga. Claro que não fiz isso, caso contrário não estaria agora narrando essa coisa toda. Teria enfartado no mínimo.
Retomei meu ritmo, percurso e maha mantra. Completei meu trajeto, cheguei em casa, um belo banho e logo já estava me dirigindo para a rua Barata Ribeiro com intuito de ir de ônibus para o Leblon onde sabia que existiam muitas cópias disponíveis do Led Zepellin Celebration Day. O trânsito até que não estava ruim para os parâmetros das manhãs de Copacabana em dias úteis. Com relativa facilidade logo desci do ônibus na parada mais próxima da Avenida Bartolomeu Mitre onde se localiza o shopping onde ia comprar minha cópia do Led. Não me perguntem o numero do ônibus, já seria demais. Nem consigo agora nem me recordar o nome da via arterial que cruza o bairro do Leblon e consequentemente faz esquina com todas as vias transversais, Bartolomeu Mitre inclusive.
Mal entrei na Bartolomeu Mitre quase tenho uma síncope cardíaca. Vejo o senhor trotando com a mesma voracidade e novamente fumando! Sério gente isso aconteceu mesmo! Segui e observei que ele entrou num simpático prédio da Bartolomeu Mitre. Quero crer que ele morasse lá. Vamos fazer em palavras o percurso de nosso maratonista fumante. Metade do Leblon, uns dois quilometros. Mais toda Ipanema que calculo oscilar entre tres e quatro quilômetros, mais cerca de quinhentos metros para acessar Copacabana com seus quase seis quilômetros e tudo multiplicado por dois, pois ele foi e voltou. Por baixo o senhor trotou vinte ou vinte dois quilômetros. Nada mal. E a quantidade de cigarros? Isso fica nas hipóteses, se for um cigarro em média por quilômetro, passaria de uma carteira só na manhã de caminhada. Acredito que essa média deva ser menor, mas que deva beirar as dez unidades de nicotina, alcatrão, raticida e outros componentes que em uma unidade somente mata um cavalo puro sangue do meu amigo João Bosco.
Cheguei a conclusão que o senhor era um Highlander, um ser que transcendeu o fenômeno chamado morte. Não há outra explicação cabivel e racional. Aliás não é nada racional uma pessoa fazer exercícios físicos fumando. O fato foi realmente inusitado e até hoje não entendi patavinas.
Consegui comprar o Led Zepellin Celebration Day e novamente de ônibus fui para casa. No caminho fiquei pensando no acontecido e me entristeci. Como aquele senhor conseguia tal proeza e aparentava uma saúde de vaca premiada muito melhor que a minha? Contemplei vagamente a ideia do suicídio, mas aos primeiros acordes de Good Times Bad Times esqueci do senhor maratonista fumante para só me recordar disso tudo hoje, quase uma década depois e sei lá porque. Afirmo categoricamente que naquele dia fui salvo pelo Led Zepellin!!!
O que foi feito do senhor? Se estiver vivo já está na casa dos setenta e considerando a possibilidade dele ainda manter essa bizarra prática de praticar fortes caminhadas fumando realmente se trata de um ser diferenciado, um extra terrestre no minimo, penso eu. Uma ameaça para a humanidade ou um caso isolado de habitante de astro intruso que veio para esse planeta de maya e com qual objetivo? Se for tirar onda com minha cara, já conseguiu e cumpriu com louvor sua missão. Pode retornar para sua morada cósmica de cigarros.
Por via das dúvidas lembro - me que troquei meu horário de caminhada para o fim da tarde somente para não encontrar o maratonista fumante outras vezes. Nas primeiras caminhadas ao anoitecer juro que fiquei inseguro e a todo instante pensava que qualquer homem grisalho poderia ser o maratonista fumante seguindo meus passos, mas por que? Sem resposta logo esqueci dele. Mas, minha barriga continua a mesma, minto. Cresceu um pouco de lá para cá!!!


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