Conforme o
prometido, vamos ao episódio da MMPB ou Moderna Música Popular
Brasileira.
Mal tinha
completado meus vinte e poucos anos quando um dia, meu já falecido
pai, então funcionário de um órgão público cultural, me oferece
um convite para assistir num teatro do centro do Rio de Janeiro a um
evento da MMPB, Moderna Música Popular Brasileira.
Fiquei
sinceramente instigado, curioso mesmo e abdiquei de ir a um show do
Celso Blues Boy no Circo Voador para comparecer ao tal festival.
Lá chegando
notei uma platéia estranha, pálida. Hoje digo que pareciam parentes
de sangue do vampiro Lestat.
Anunciou-se no
sistema sonoro o início do espetáculo. Vou resumir os números que
mais me impressionaram a começar pelo primeiro. Um sujeito de fraque
entra no palco com várias galinhas, todas em coleiras e fazendo um
escarceu danado. Medo das luzes e atiçadas pelo sujeito penso eu. O
inusitado grupo deu uma série de voltas pelo palco e sairam sob uma
chuva de aplausos. Não entendi nada e fiquei esperando alguma
explicação ou que o próximo número fosse executado no piano num
dos cantos do palco.
Segundo número,
um rapaz com barba de fauno entra com uma mochila e uma cadeira.
Senta-se solenemente e as luzes se apagam. Pensei que ele ia retirar
da mochila uma gaita e tocar musica, mas ao reacender das luzes havia
uma cadeira com um ovo e abaixo dela um penico. O público foi ao
delírio. Gente estranha em festa esquisita. Procurei a saída de
emergência, janela ou qualquer possibilidade de fuga, mas tava tudo
trancado a sete chaves e cadeados. Controlei meu pânico através de
pranayamas e fechei os olhos. Não vi alguns dos números seguintes,
mas fui curioso o suficiente para assistir uma algazarra de palavras
sem nexo proferidas por um casal. Quando abri os olhos o casal estava
nu e plantando bananeiras. Apelei para Krishna e confesso que pedi
reforço para todos os santos.
De alguma forma
minhas preces foram atendidas e uma moça surge no palco com um
violino. Pena que ela não sabia tocar o instrumento. Um barulho
estridente e infernal e nada de alguém tocar o abandonado piano. A
platéia a essa altura estava em êxtase. Eu pensando no Celso Blues
Boy.
Por último um
cara com pinta, roupa a acessórios de surfista surge no palco .
Carregava inclusive uma prancha que pela minha observação e
experiência no assunto, nunca tinha sido apresentada ao mar, devido
a ausência de marcas de parafina. Estremeci de medo! O rapaz colocou
a prancha sob o piano e sentou-se com toda pompa e circunstância dos
grandes pianistas. Ufa, mesmo com toda papagaiada um pianista.
Os primeiros
acordes até que prometiam, mas em seguida uma série de cacofonias
que um neófito em jazz poderia com uma imensa dose de boa vontade
sugerir alguma forma de plágio do mestre Thelonious Monk, mas era
pura agressão aos ouvidos. Ao menos para os meus porque o público
delirava, babava colorido de tanta catarse.
Fim do evento,
abriram-se as portas e tratei de cair fora com tempo suficiente de
ouvir comentários super elogiosos e lamentos de que o festival
deveria ter mais performances. Até hoje tenho plena convicção que
nas clínicas psiquiátricas tem gente muito melhor!
Cheguei em casa me sentindo uma múmia gagá. Meu pai estava absorto
em textos teatrais de Shakespeare, mas ele tirou os óculos e me
perguntou se eu havia gostado. Contei-lhe a verdade e ele que sempre
fora muito comedido em seus atos e gestos, surpreendentemente emitiu
uma sonora e estrondosa gargalhada. Desconfiei de que ele sabia da
furada na qual ele tinha me metido. Uma pegadinha como se diz hoje,
mas ele morreu afirmando que desconhecia o que era a Moderna Música
Popular Brasileira. Registros akasicos vão me confirmar isso ou não,
após eu abandonar este corpo físico. De qualquer forma esta foi a
experiência mais bizarra e surrealista que tive nesta vida na seara
musical. Antes tivesse ido ao show do Celso Blues Boy, minha praia,
minha tribo. Só consegui adormecer naquela noite depois da segunda
audição do álbum Shadows & Light de Joni Mitchell com Pat
Metheny, Jaco Pastorious, Shorter e time de primeira. Obrigado Joni e
amigos, vocês me salvaram de uma possível crise de insônia crônica
e estão sempre em minhas orações. Hare Krishna!


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