Love Radha Krishna

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domingo, 23 de agosto de 2015

Memórias: MMPB. Moderna Música Popular Brasileira



Conforme o prometido, vamos ao episódio da MMPB ou Moderna Música Popular Brasileira.
Mal tinha completado meus vinte e poucos anos quando um dia, meu já falecido pai, então funcionário de um órgão público cultural, me oferece um convite para assistir num teatro do centro do Rio de Janeiro a um evento da MMPB, Moderna Música Popular Brasileira.
Fiquei sinceramente instigado, curioso mesmo e abdiquei de ir a um show do Celso Blues Boy no Circo Voador para comparecer ao tal festival.
Lá chegando notei uma platéia estranha, pálida. Hoje digo que pareciam parentes de sangue do vampiro Lestat.
Anunciou-se no sistema sonoro o início do espetáculo. Vou resumir os números que mais me impressionaram a começar pelo primeiro. Um sujeito de fraque entra no palco com várias galinhas, todas em coleiras e fazendo um escarceu danado. Medo das luzes e atiçadas pelo sujeito penso eu. O inusitado grupo deu uma série de voltas pelo palco e sairam sob uma chuva de aplausos. Não entendi nada e fiquei esperando alguma explicação ou que o próximo número fosse executado no piano num dos cantos do palco.
Segundo número, um rapaz com barba de fauno entra com uma mochila e uma cadeira. Senta-se solenemente e as luzes se apagam. Pensei que ele ia retirar da mochila uma gaita e tocar musica, mas ao reacender das luzes havia uma cadeira com um ovo e abaixo dela um penico. O público foi ao delírio. Gente estranha em festa esquisita. Procurei a saída de emergência, janela ou qualquer possibilidade de fuga, mas tava tudo trancado a sete chaves e cadeados. Controlei meu pânico através de pranayamas e fechei os olhos. Não vi alguns dos números seguintes, mas fui curioso o suficiente para assistir uma algazarra de palavras sem nexo proferidas por um casal. Quando abri os olhos o casal estava nu e plantando bananeiras. Apelei para Krishna e confesso que pedi reforço para todos os santos.
De alguma forma minhas preces foram atendidas e uma moça surge no palco com um violino. Pena que ela não sabia tocar o instrumento. Um barulho estridente e infernal e nada de alguém tocar o abandonado piano. A platéia a essa altura estava em êxtase. Eu pensando no Celso Blues Boy.
Por último um cara com pinta, roupa a acessórios de surfista surge no palco . Carregava inclusive uma prancha que pela minha observação e experiência no assunto, nunca tinha sido apresentada ao mar, devido a ausência de marcas de parafina. Estremeci de medo! O rapaz colocou a prancha sob o piano e sentou-se com toda pompa e circunstância dos grandes pianistas. Ufa, mesmo com toda papagaiada um pianista.
Os primeiros acordes até que prometiam, mas em seguida uma série de cacofonias que um neófito em jazz poderia com uma imensa dose de boa vontade sugerir alguma forma de plágio do mestre Thelonious Monk, mas era pura agressão aos ouvidos. Ao menos para os meus porque o público delirava, babava colorido de tanta catarse.
Fim do evento, abriram-se as portas e tratei de cair fora com tempo suficiente de ouvir comentários super elogiosos e lamentos de que o festival deveria ter mais performances. Até hoje tenho plena convicção que nas clínicas psiquiátricas tem gente muito melhor!
Cheguei em casa me sentindo uma múmia gagá. Meu pai estava absorto em textos teatrais de Shakespeare, mas ele tirou os óculos e me perguntou se eu havia gostado. Contei-lhe a verdade e ele que sempre fora muito comedido em seus atos e gestos, surpreendentemente emitiu uma sonora e estrondosa gargalhada. Desconfiei de que ele sabia da furada na qual ele tinha me metido. Uma pegadinha como se diz hoje, mas ele morreu afirmando que desconhecia o que era a Moderna Música Popular Brasileira. Registros akasicos vão me confirmar isso ou não, após eu abandonar este corpo físico. De qualquer forma esta foi a experiência mais bizarra e surrealista que tive nesta vida na seara musical. Antes tivesse ido ao show do Celso Blues Boy, minha praia, minha tribo. Só consegui adormecer naquela noite depois da segunda audição do álbum Shadows & Light de Joni Mitchell com Pat Metheny, Jaco Pastorious, Shorter e time de primeira. Obrigado Joni e amigos, vocês me salvaram de uma possível crise de insônia crônica e estão sempre em minhas orações. Hare Krishna!



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