Muitas crônicas e ficção já tiveram como cenário a Avenida Prado Júnior em Copacabana que tenho a impressão que não retornarei a ver neste corpo físico. Nem deveria escrever sobre tão afamado lugar que ganhou a eternidade nas palavras de Antonio Maria, Fausto Fawcett e cineastas diversos, alem dos músicos da Bossa Nova que lá pelas cinco da manhã corriam para o beco da fome, onde hoje está a boate Barbarela para enganar o estomago com um caldo de peixe ou similar. Contudo eu sou abusado e escrevo.
Prostituições, figuras folclóricas, tráfico de drogas e assassinatos por diversos motivos também são acontecimentos desta sacrossanta via do bairro da princesinha do mar, que mesmo sem perder seu charme, está mais para uma decadente rainha Elizabeth. Quem é rainha nunca perde a coroa , ou se perde, resta a pose. Pose e insônia, essa rua, ou melhor, avenida, não dorme. Quem dorme morre. Pancadarias generalizadas pela manhã,quando os sobreviventes da noite anterior estão com a cabeça a mil, também são corriqueiras.
Prostituições, figuras folclóricas, tráfico de drogas e assassinatos por diversos motivos também são acontecimentos desta sacrossanta via do bairro da princesinha do mar, que mesmo sem perder seu charme, está mais para uma decadente rainha Elizabeth. Quem é rainha nunca perde a coroa , ou se perde, resta a pose. Pose e insônia, essa rua, ou melhor, avenida, não dorme. Quem dorme morre. Pancadarias generalizadas pela manhã,quando os sobreviventes da noite anterior estão com a cabeça a mil, também são corriqueiras.
Um caso que muito me impressionou foi o do Betinho. Um rapaz cheio de esperança no futuro, noivo de uma legítima moça de família do bairro.
Tudo pronto para a festa, Betinho e Norma seriam felizes até que a morte os separe. Houve uma falha na execução desta frase no caso deles. Só pode ser essa a explicação.
Sábado ensolarado Betinho vai a praia, um rápido mergulho e meia hora de sol para reforçar o bronzeado. Só isso e vai para casa, ainda tinha que aparar cabelo, barba, coisas de noivo. Ao chegar a casa, um clima de velório assombrava o ar. Não se sabe quem, o mais frio dos presentes foi a arauto da má notícia. Norma estava morta. Atropelada quando saia do cabelereiro por uma carro desgovernado, conduzido por menor de idade cheio de maconha até a garganta e cocaína até o nariz.
Não haveria mais casamento não haveria mais a esperança da construção de um futuro e constituição de família, não haveria nem até que a morte os separe, uma vez que isso fora antecipado.
Betinho passou a ser a figura mais sorumbática do bairro, evitava sempre que podia conversas e grupinhos, preferindo beber sozinho. Dizem que morreu recentemente.
Não é coisa de Nelson Rodrigues, muito menos inspirado na obra de nosso genial e inigualável dramaturgo. Eu bem que duvidava da veracidade dessa estória. Na Avenida Prado Júnior, realidade e folclore são a mesmíssima coisa.
Uma puta bunduda chamada Ritinha que me convenceu da verdade. Numa noite de outono eu tava afim de comer um rabo e vi Ritinha no seu ponto, quase esquina com Rua Ministro Viveiros de Castro. O que me chamou atenção foi o fato de Ritinha estar socada dentro de um vestido uns quatro números abaixo do seu manequim, pernas de fora, enquanto as outras de calças compridas coladas no corpo.
Combinamos o preço de um programa e fiz o que todas adoram, primeiro vamos comer alguma coisa num restaurante próximo, o El Cid por exemplo. Essa estratégia manjada funciona e a puta deixa de ser puta, passa a ser uma categoria ainda não rotulada , porém muito próxima de namorada ou amiga íntima. O El Cid estava lotado e paramos nos sandubas do Cervantes e no balcão, um sujeito estranho, barbudo com um casaco parecido com as roupas militares, comia e bebia cerveja. Muito mal-encarado e com uma expressão de pouco ou nenhum amigo. Ritinha me pareceu íntima dele e me apresentou ao Betinho. A energia que o cara exalava era da pior qualidade, não fiquei muito tempo no Cervantes e disse para Ritinha que estava morto de tesão para enrabar ela, e tava mesmo. Assim, caímos fora do bar e fomos para o hotel. Ritinha era ótima e num dos intervalos, toquei no assunto do barbudo do bar e ela me contou tudo do drama do Betinho.
Betinho contratava as prostitutas locais, elas acertavam o preço e subiam até o apartamento do infeliz.
Lá, o rapaz pedia para elas vestirem uma roupa de noiva, até aí um fetiche masculino bem aceitável e banalíssimo. O problema é que as profissionais tinham que deitar num caixão de defunto colocado sobre uma mesa num dos cômodos.
Betinho então tirava sua roupa e corria ao redor do caixão gritando e chamando por Norma enquanto masturbava-se. Em sua pratica sexual distorcida e mórbida, em nenhum momento Betinho tocava na prostituta e quando gozava, Betinho se jogava ao chão aos prantos, dizendo coisas sem nexo e dispensava a já mais do que assustada prostituta.
O susto que essas moças tomavam era imenso, entretanto logo essa fase passou porque uma foi avisando a outra que o cara barbudo, assim e assado não oferecia perigo. Betinho passou a ser a grana mais fácil das meninas, todavia elas não tripudiavam dele, sempre houve um profundo respeito pela sua dor. Mesmo quando elas comentavam com clientes e amigos como eu, o faziam com respeito e exigiam do ouvinte igual postura. Pode ser a puta que for, mas elas têm mais coração que muita mulher que não tem na prostituição, o seu ofício.
Depois daquela noite no Cervantes, sempre que via Betinho pela rua nos cumprimentávamos com acenos de mãos e cabeças. Nunca troquei uma única e rara palavra com ele. Com Ritinha ainda sai mais algumas vezes e depois fui trocando de profissional até que firmei um namoro. Soube uma noite, chegando do centro onde trabalhava, por outra profissional da noite, gente boa e muito querida, chamada Madá, que Ritinha havia sido encontrada morta. Enforcada com o fio do telefone. Uma dor visceral me assolou e levei Madá para meu apartamento. Não rolou nada, ficamos somente falando de Ritinha, uma forma de exorcismo.
Quem teria feito uma barbaridade dessas? Um tarado com certeza. Enganei-me completamente. Quem matou Ritinha foi Cícera, companheira de Ritinha, num acesso de ciúmes. Não era para ser, mas é muito normal esse tipo de ocorrência nas ruas do perímetro da Avenida Princesa Isabel até a rua Duvivier no Beco das Garrafas.
Posso estar enganado porque não tenho estatísticas, mas suspeito que esse tipo de crime para a polícia é mais um ou uma prostituta a menos. Para mim é um ser humano a menos. De Cícera ninguém nunca soubeseu paradeiro. Se sabem , ninguém não abre o bico. Eu bem que poderia ter perguntado ao suposto Betinho sobre a veracidade ou não da macabra estória, mas vai que era verdade e o cara desabasse por cima de mim ou me cobriria de porrada? Segredos nem sempre devem ser desvendados, principalmente os de Copacabana. Viver não é para qualquer um e na decadente Copacabna só profissionais da vida sobrevivem.


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